quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Meu primeiro Mia Couto...

"o sonho é o olho da vida".

Esta é apenas uma das frases que provocam vai-e-volta em Terra Sonâmbula.

Mia parece mesmo deslizar como um gato pelas palavras, brincando como se fosse dono de todas elas. As histórias se entrelaçam, se soltam, se amarram de novo e voltam correndo, independentes. Você tem a sensação de muito, a leveza do pouco.

Sem dúvida um tempo a ser valorizado, a cada virar de página.

Não, isso não é uma resenha.
É um desabafo. E dos melhores.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Generosidade e dualidade

E ela teve de se dividir em duas. Uma se prestava à generosidade sem espera de trocas, sem economizar sorrisos, sem esforço, natural.
A outra, surgiu mais dura e áspera, para que sua parte generosa não se perdesse na ingratidão dos outros.
Tenho como falar sobre o assunto sem ser brega ou até cair no ridículo?
Tenho.
Aprendi isso após assistir A Alma Boa de Setsuan, com a querida Denise Fraga, no Teatro Renaissence. No texto de Brecht, ela e elenco desfilam aos nossos olhos idas e vindas, trapalhadas, tentativas, acertos, enganos, voltas-atrás, amores, amizade. Assim como é nossa vida. Com histórias de perdas e injustiças muito bem representadas e identificáveis, da platéia saí com esperança. E, esperança, como sabem, é uma escolha: ela está sempre ali, pronta para nos dar a mão. Mas, por vezes, insistimos em olhar o outro lado, acharmos que devemos ser forte, que ser enganado é sinal de fraqueza.
Mas não é. Ô, se não é.
E foi o que vi ali. É o que vejo em cada sorriso de criança, em cada “obrigado” na padaria, a cada novo amigo feito, a cada reencontro com antigas e boas memórias. É renovação pura. De quem, sim, às vezes tem de se dividir em duas ou mais para dar conta de si mesma. Mas que adora ver na poesia e na literatura o motivo para generosizar por aí. E não só nos textos. Na poesia e na literatura que vemos todos os dias, nas ruas, nos desconhecidos e nos nossos. E viva a pieguice.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Hoje eu vi literatura...

Uma busca pelas palavras. Puxa pela memória, junta sílabas, sorri sem graça... lembra o nome correto, usa de um jeito diferente e provoca muitas risadas.
Todos riem, mas, no fundo, estão emocionados: quando aqueles olhos brilham, cheio de dúvidas em busca da palavra perfeita, é uma viagem que fazemos em nós mesmos. Já passamos por esta angústia e mantemos esta busca sempre, loucos para acertar, loucos para emocionar, como esta criança, que me deu hoje momentos lindos desta adorável parceria com as letras e sons.
Isto é literatura. A literatura que está sempre a minha volta, letrando, vivendo, sorrindo para mim. Obrigada Olivia. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Foi

Já tenho saudade.
Melancolia da espera da lembrança à frente.
Penso o depois, como se fosse um tempo atrás. Nostalgio o que vivo agora, com olhos de quem viu acontecer e gostou.
E dói.
Vem um suspiro. Penso no depois do hoje, quando o tempo ainda está no gerúndio, calmo, no ritmo que pode, alcançando o possível, sonhando o porvir.
E alivio. Passei por isso, oras. Expectativa renovada.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A mim me importam as pessoas...

Gosto de histórias, dos gestos, do jeito de contar. A empolgação, o abraço.
Às vezes rola até um bater de palma!
Adoro isso. De ver como elas se comportam diante de uma dificuldade.
De ver como seguram os garfos. Pelo que os olhos brilham.
Fico observando nas ruas, penso que vida as levaram até ali, naquele momento.
Quando estou com alguém especial, quando arranco uma gargalha, um suspiro. É o que vale a pena.
Multiplico por mil este sentimento quando o outro é a criança.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Muitas vezes é curto o que se tem a dizer...

Fiquei semanas sem escrever aqui, mas...

O fato é que um de meus maiores prazeres é dirigir num final de tarde
e olhar o mundo pelo retrovisor...

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O menino da cápsula

Ele não lembra quem disse, ou onde ouviu. Mas a informação tomou-o como um forte estalo:
- Uma cápsula que resista ao tempo?!? O que eu colocaria nela para que o mundo saiba quem fui eu?
Quem sou eu? Perguntou-se insistentemente. Depois resolveu perguntar aos pais, aos amigos da escola. O padeiro que ele via todas as tardes. O seu Zé que fica na porta do clube.
Foi para casa cheio de si e começou a procurar no quarto o que ele poderia colocar dentro da cápsula.
A bola amarela e roxa, que ele ganhou da tia Sônia.
O caderno de frases que ele anota das músicas que mais gosta.
O tênis que ele guardou. Não dá mais para usar, mas ele não quis jogar fora.
Fotos. A viagem com os pais por Minas Gerais, o aniversário no acampamento.
- Cabe mais uma coisa.
Seu olhar foi direto para a prateleira encantada (como ele costumava chamar o lugar dos livros).
Que dúvida! Marcelo, Marmelo, Martelo? A Bolsa Amarela? Peter Pan? Crônias de Nárnia?
Pensou e escolheu. Não revelou a ninguém.
Ele não tinha quintal para enterrar. Pegou uma caixa de presente usada, colocou tudo lá dentro, enfiou no armário, lá no fundo. Cobriu de roupas. Sentou-se na cama, olhou, orgulhoso.

E torceu para alguém achar.

Ele cresceu. Passou anos morando na Europa, conheceu países, povos, culturas. Um dia, voltou para casa, de vez. Os pais ainda moravam no mesmo lugar.
Assistindo a um programa de televisão, ouviu o assunto da cápsula, teve o mesmo estalo de anos atrás.
Correu para o quarto, para espanto dos pais. Abriu os armários, tirou tudo. Achou. A caixa estava lá, do jeito que ele deixou.

Abriu a "cápsula". Suspirou a cada retirada. Viajou pelos anos, pelas lembranças. Vieram cheiros, sabores, sensações. Abraçou a caixa como quem reencontra um velho amigo e chorou a emoção.

(ao meu amigo Peterso)