sexta-feira, 6 de junho de 2008

O rim e o drops

A aula de inglês do intercâmbio em Nova York focou em um tema bem específico: transplante de órgãos. Naquela classe com traseuntes do mundo inteiro, a conversa girou em torno de códigos de conduta, possibilidades, questões - literalmente - de vida e morte.
"Bizarro", pensou a garota, após se encapotar com casaco, gorro, luvas. Depois, a mochila e a câmera fotográfica no pescoço. Nova York é para ser fotografada, qualquer canto, qualquer pessoa.
O passeio de turista acabou e ela termina o exaustivo andar para lá e para cá com uma volta do confuso - mas finalmente decifrado por ela - metrô novaiorquino. Entou no vagão apenas quatro estações antes de seu destino, Penn Station. Uma antes, levantou-se do banco para já se colocar a postos, perto da porta. Olhou mais uma vez pela lista de estações - checar nunca é demais.
Uma quase tosse veio nela. Não segurou, quase tossiu, de fato. Um homem com a aparência indiana olhou atento. Perguntou a ela se estava passando mal. Ela não falava bem o inglês, mas entendia razoavelmente. Disse que não, emendou um "it´s just coff". Ele entendeu. Sacou do bolso um drops. "Pode ficar com a metade".
Foram segundos. Ela agradeceu a gentileza. E ele disse que era uma espécie de retribuição: ele havia recebido a maior gentileza do mundo. Era um transplantado. Ele ganhou um rim de alguém que nunca viu. Detalhou a ela sobre a cirurgia, o antes e depois. E como as pessoas o olhavam de um jeito diferente, principalmente quando ele contava sua história. E como ela, a menina, era gentil em ouvir tudo. E sorrir.
"Você tem um sorriso gentil", ele disse a ela.
O trem parou, ela desceu.

Um comentário:

Malu Echeverria disse...

Eu adoro essa história!
Bjs.