quarta-feira, 18 de junho de 2008

Li não li

Sempre a dúvida, a angústia, a culpa.
Procuro a leitura por prazer, mas o questionamento afasta, empurra para o outro lado.
O tempo vai.
Na busca, partes começam a se desprender da memória.
Folheio as páginas como quem folheia lembranças: tem cheiro, cor desbotada, casa, abraço.
Não há sensação, palavra, sentido ou verso que dê conta do tempo. Do tempo dos livros, do número de páginas, da profundidade de emoções.
Não leio rápido. Sinto cada palavra. Sentir, leva tempo.
Mas continuo.
Remexo na infância, encontro Ana Maria, Monteiro, os contos clássicos, em várias contações. Respiro.
Remexo na adolescência, chego a Machado, arrepio de Eça.
Quem mandava em mim era a música, me embebedava de poesia. Suspiro.
Remexo as memórias e vejo que vivo de coincidências. Cruzo livros, leituras, indicações, amigos. Vejo.
Adquiro olhos de ver.
Caio em Manoel de Barros, tropeço sempre em Pessoa, suspiro com Cecília Meirelles.
Mas vivo mesmo é me encontrando com Clarice. O li não li perde a importância. Sinto, entendo.
Releio Clarice. E releio a mim. Às vezes não dou conta. Mas não vivo mais sem.

(após provocação de Nelson de Oliveira para poemizarmo-nos)

Um comentário:

Olga Vallejo disse...

Gostei muito, Cris, da sua vida (com a qual nos identificamos) reconhecida e relembrada através das histórias e sensações despertadas por determinados escritores! Idéia muito original e o texto é de uma leveza poética notável. Parabéns!