sábado, 3 de maio de 2008

Duas noites alucinantes

Junto ao folhear da revista semanal, o som da campainha. Pelo horário levanto assustada, ninguém toca a esta hora. Ligo o canal de TV que nada transmite e vejo na porta as costas de alguém. Mais três vezes. Quando sai, resolvo ir à janela e descubro então o conhecido. O carro fora roubado.
Pedi socorro afetivo, desci e confirmei a notícia. Manhã seguinte, demora esperada para convencer a segurança que não nos dá segurança alguma de que o delito ocorreu, o culpado foi o outro. Problema da corretora de seguros, espera de todos.
Dia seguinte, novo sobressalto. O carro foi encontrado, senhora. A voz da policial me assustou mesmo com boa notícia. Boa? Segui para nova delegacia, suspense. Saímos atrás da viatura que pára. Policiais pedem a minha companhia para entrar em um estacionamento. O que é este lugar? Local de desmanche? Estacionamento da polícia? Não, senhora. Aqui é um estacionamento particular: seu carro foi meio para roubar outros três. Olha ele ali abandonado. Pode ver.
Posso ver? Mas posso mexer em tudo se tudo foi mexido? Claro. Mexo, então. Tudo revirado, mas tudo lá. E com bônus. Embalagens de equipamentos de sons. Outro crime. Mexo, ligo, sento. Posso ir? Não. Esperamos o delegado decidir. Mexo, sento. Aquilo ainda é meu? Largo aqui?
Não pode mexer mais, senhora. A perícia vem fotografar o veículo, ele foi usado num crime. Sinto-me longe do CSI americano e bem perto do caso Isabella em que todos entram e mexem no local após o crime e, depois, a polícia. Quando vem a perícia? Não sei.
Enquanto isso, papo de tiros, de onde estão ladrões, de qual é o PCC. Frio aumenta. Mal-estar. Sobressalto mais fome mais descaso. Sou a vítima e a mais castigada. Como se não fosse um serviço prestado, mas um favor pedido. Quero ir para casa. Não posso.
Perícia chega seis horas depois. Consegui dormir um pouco. Posso mexer de novo no carro, vou para a delegacia. Mais duas horas à espera. À espera da conversa, à espera da troca de plantão, à espera do sistema ligar, à espera do bom humor, das piadinhas sem graça, à espera da falta de respeito a mim e aos policiais militares que passaram a noite naquela situação e que se solidarizam comigo.
Mas nada importa. Passo mal. Não agüento. Eles se sensibilizam e fazem o trabalho que foi incumbido a eles, no momento do emprego. Não entende os detalhes, confunde-se. Grampeia, alisa o papel, julga. Acredita ter feito um grande trabalho e espera agradecimento. Devolvo. É hora de trabalhar.

3 comentários:

Nanete Neves disse...

Muito boa esta sua cronica, ela reflete o sentimento de absurdo que nos acomete nessas situações. Absurdo e uma certa revolta contida. Foi ótimo você ter transformado essa estupefação em palavras. Parabéns, querida.

Marcia Olivieri disse...

Gostei do estilo e narração. Ágil e contundente!!!Parabéns!!!

Retrix disse...

Que novela... não sabia que funcionava assim. Para meu azar (ou sorte), nunca acharam um carro da minha família. Gostei de ler.
Beijos