sábado, 24 de janeiro de 2009

Ativadores de lembranças

Adoro curtir os momentos que hoje chamo de Ratatouille. Quem assistiu a esta maravilha da parceria Disney Pixar, vai entender sobre o que estou falando. É quando um cheiro, um sabor, uma música, um pedaço de cena provoca uma lembrança forte e um prazer.
Cada vez que entrou na Starbucks, vou imediatamente aos meus minutos preciosos em Nova York e, não são apenas as maravilhas da cidade que me vêm à minha mente. O sentimento de liberdade vem junto e tudo o que significou a viagem para mim. Tudo que me aconteceu por dentro, tudo que mudou.
A música é um dos meios mais fortes de provocar isso em mim. Acontece o tempo todo. Outro dia foi com Elton John, com a canção Guess That's Why They Call It The Blues. Sempre soube que ela me lembrava a adolescência, quando eu adorava chorar por mil paixões ao mesmo tempo.

Mas neste dia, eu estava dirigindo e a ouvi no rádio. E fui levada imediatamente à cena de um bailinho, aos 11 anos, à espera de ser convidada para dançar. Foi forte e rápido.
E quem diz que a gente não pode viajar no tempo se fazemos isso o tempo todo?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Está lá fora

Na minha cozinha há um vitrô que, mesmo um pouco estreito, permite que eu olhe por ele. Como dá para as costas do meu prédio, consigo ver pouco mais do que uma fileira de telhados, alguns prédios, varais.
Vez ou outra, tenho a sorte de ver passarinhos.
Aconteceu ontem. Um bem-te-vi foi enfeitar as antenas de TV.
Muitas pessoas reclamam que em São Paulo não vemos mais nada além de prédios e de tons de cinzas.
Mas será mesmo que elas olham pela janela?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Os minutos atrás de mim

Final de ano, correria, falta de tempo e aquela angústia chamada "não-vai-dar-tempo" pega a todos.
Olho para trás e sempre dou de cara com eles: os minutos atrás de mim. Eles passaram, oras.
O dia 31 de dezembro aproxima cheio de promessas. Primeiro, um dia de expectativas, mas sem tanta correria com uma véspera de Natal. Não há os presentes. Depois, a véspera para o ano-novo (nunca sem se com ou sem hífen...) sugere algo leve, festivo, liberto. Entristeci-me ontem, com uma reportagem no caderno para adolescentes da Folha de S.Paulo. Era um grupo de meninos e meninas que odiavam as festas da passagem do ano, a maioria atribuindo a noite a uma série de encontros sem sentido e sentimentos de falsidade. Triste pelos sentimentos. E triste porque pensei: "nossa, se são tão amargos assim, como não notam que estas situações podemos ter todos os dias??"
Ainda não é véspera, mas eu já acalmo meu coração. Rumo a um 2009 verdadeiro. Seja nos sorrisos ou nas lágrimas motivadas pela prosa ou pela poesia.
Não importa. Quero é viver.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Pela janela de trás

Quando eu era criança, era proibido abrir a janela de trás dos poucos carros quatro portas que em que eu circulava. Era perigoso. Mas era uma chance deliciosa e então eu apenas sonhava com ela.
Adoro janela. Ver as pessoas nas ruas, imaginar seus destinos, suas histórias. Por isso sempre preferi ônibus a metrô. O metrô não me deixa ver histórias.
Agora existe um recurso. Os vidros de trás dos quatro portas abrem somente até uma determinada altura. É proibida a olhada de uma criança mais do que aquilo.
Mas esta semana vi uma resistente.
Ela tinha uns quatro anos e estava lá, diante de sua limitação de janela.
Mesmo à noite, mesmo perigoso, mesmo com a violência, mesmo com aquele vento gelado, ela estava lá, de ponta de nariz na janela.
O vento vinha forte, ela fechava os olhos. Mas só por milésimos de segundos. Suas piscadelas não podiam impedi-la de ver as histórias.
Os pais, nos bancos da frente, também tinha suas janelas abertas. Mas estavam mais envolvidos com suas próprias histórias.
A menina queria mais. E viu.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Olha o troco!

Ele estava ali, andando na mesma calçada, puxando as prateleira em frangalhos, exalando mau humor. Vi e era inacreditável. Uma viagem ao passado e uma comum mas sempre incrível constatação: há certas coisas que nunca mudam.
Todo começo de ano, a mesma coisa. Chegava o momento de ir ao bazar daquele grosseiro senhor de óculos de armação grossa, semblante de sofrimento, roupa antiga. Minha mãe só queria ir à livraria dele, que tinha pretensão de bazar.
- É mais barato, Cris. Além disso, sempre encontramos todos os livros lá.
E ela tinha toda a razão. Suportávamos aquele mal-humorado vendedor pelas vantagens. Mas nem por isso, relutava sempre à minha visita anual.
- Será que não posso ficar em casa desta vez?
Nunca podia. Parecia ensinamento. Deveria ser mesmo, um teste de resistência, controle. Quantas vezes na vida não temos que encarar o que não queremos?
Eu sempre ia.
E era a mesma coisa. Entrava naquele caos de infindáveis pilhas de livros. Eu sempre achava que ele não iria encontrar. E ele sempre encontrava o pedido. Existia uma ordem nele naquele caos. Impossível perceber como.
Após horas de busca, as inúteis tentativas dos clientes na ajuda e os berros constantes que ele remetia à filha, os livros estavam ali, todos na nova pilha, a pilha de livros da Cris.
Era o fim da tortura. Que sempre terminava com uma grosseria final. Não sei por que, eu e minha mãe nos perdíamos entre as publicações enquanto ele contabilizava nosso dinheiro.
Nós, à beira da saída daquele empoeirado local, a minutos de nos livrarmos da bagunça em forma de livros, ele gritava do caixa:
- Ei, olha o trooooco!
E não é que ele ainda está lá?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O que me darão em troca?

Semana passada, ouvi meu professor setenciar:
- O CD tem mais um ou dois anos de vida. Não vai passar disso...
Aquilo ressou em mim por dias. Ressoar. Como será esta ressonância agora?
Quando ouvi isso dos vinis, em troca me deram o CD, um formato tipo "pocket" do que eu tinha grande. Eu sei que jamais sentiria o impacto de uma capa tipo Sgt Peppers. Nem da felicidade-bônus de um quase pôster do U2 em Joshua Tree. Mas eu tinha ali outro tipo de arte, de idéia, de jeito de guardar.
O que tenho agora?
Todos com a mesma cara da Sony. Todos com a mesma cor prata espelhada. Todos escritor com a mesma caneta para CDs. Todos iguais.
E as junções?
David Bowie agora pode estar lado a lado, faixa a faixa com Chico Buarque. Living Colour em companhia de High School Musical.
Promíscuos tempos digitais.
Possibilidades incríveis. Chances de ter, ouvir, ver, assistir.
Temos um e outro.
Mas com qual cara?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Tempo, tempo

Eles deram um nó no tempo.
Todos os antigos conceitos, preconceitos e pré-conceitos chegaram ao fim. Quando se encontraram, de fato, recomeçaram.
Renovaram idéias, sonhos. Trocaram de posições no tempo. Ele é mais novo e ela, mais velha. Mas vivem mudando de papéis. Juventude ou inexperiência? Experiência ou maturidade?
Eles brincam com os dias, guardam datas. Transformam os minutos, os sorrisos duram mais do que o comum.
Fazem o mesmo com cara de novo. Voltam nas lembranças para reapresentá-las um ao outro. Acham tudo diferente. Revêem-se. Vencem.
Divertem-se tanto com o tempo que comemoram aniversário no dia em que as pessoas lembram os finais dos finados.
E muitas vezes nem se dão conta que o tempo passa assim mesmo. Ou é o tempo que não está dando conta deles?